Selantes e Patologias

05.11.25 22:26 - Por Luiz Godoy

Como a escolha e aplicação corretas evitam falhas em telhados e estruturas metálicas

Introdução: o “detalhe invisível” que define a durabilidade


Em qualquer estrutura metálica, o desempenho da cobertura depende de uma combinação entre cálculo estrutural, dimensionamento de telhas e, principalmente, dos pontos de vedação.
Entre esses elementos, o selante é, paradoxalmente, o menos valorizado e o mais decisivo para a durabilidade.

É ele quem garante a estanqueidade das juntas, absorve movimentações térmicas, evita infiltrações e impede a entrada de agentes agressivos (água, oxigênio e poluentes).
Quando ignorado ou aplicado incorretamente, o selante se torna o elo mais fraco da cadeia, dando origem às patologias mais onerosas: infiltrações, corrosão, delaminação e até o comprometimento de componentes estruturais.


1. O papel do selante nas estruturas metálicas


Nas coberturas metálicas, o selante tem três funções principais:
1️⃣ Vedação - impedir passagem de água, ar e poeira entre juntas e fixações.
2️⃣ Elasticidade - acompanhar movimentações térmicas sem perder aderência.
3️⃣ Proteção química - resistir à radiação UV, umidade e agentes agressivos.

Essas funções parecem simples, mas exigem que o produto escolhido seja compatível com o substrato (metal, galvalume, alumínio, aço galvanizado), com a dilatação térmica esperada e com o regime de exposição solar e química do ambiente.

Um erro comum é aplicar selantes genéricos, pensados para uso civil, em sistemas metálicos de alta movimentação ou exposição. Essa incompatibilidade leva à ruptura precoce, fissuras e infiltrações.


2. Tipos de selantes mais usados em coberturas metálicas


A escolha correta do selante depende do comportamento físico-químico do material.
Os principais tipos são:

2.1 Poliuretano (PU)


  • Boa aderência em metais, concreto e madeira.

  • Alta resistência mecânica e flexibilidade.

  • Contudo, baixa resistência a UV, podendo amarelar e perder elasticidade.
    👉 Indicado para áreas internas, juntas de fixação sob telhas ou onde há cobertura contra radiação direta.


2.2 MS Polymer (Modified Silane)


  • Combina características do PU com resistência a UV e intempéries.

  • Excelente aderência sem primer em diversos substratos.

  • Cura sem solventes, ideal para obras limpas.
    👉 É o mais versátil para coberturas metálicas expostas, vedando rufos, cumeeiras e junções com alvenaria.


2.3 Silicone neutro


  • Resistência térmica e química elevada.

  • Não sofre ataque por raios UV.

  • Porém, possui aderência limitada em metais galvanizados e baixa repintabilidade.
    👉 Indicado para vedações entre vidros, policarbonato ou junções metálicas sem pintura posterior.


2.4 Butílico


  • Base solvente, com excelente adesão inicial e flexibilidade a frio.

  • Não tem resistência a UVa e UVb, não pode ficar exposto.

  • Mantém vedação permanente em sobreposições de telhas.
    👉 Muito usado em fitas selantes aplicadas sob telhas e cumeeiras.


Cada tipo de selante tem um “território técnico” específico, e aplicar fora dele é receita para patologias.


3. Patologias mais comuns associadas a falhas dos selantes


As patologias em coberturas metálicas frequentemente se originam em detalhes executivos:

  • Fissuração do selante devido à movimentação térmica superior à sua capacidade de alongamento.

  • Perda de aderência por contaminação da superfície (óleo, pó de zinco, ferrugem, sugidades).

  • Bolhas internas formadas por aprisionamento de umidade, aplicação sobre substrato quente, selantes com solvente .

  • Degradação por UV em produtos sem aditivos adequados ou destinado a local diferente do indicado. 

O efeito acumulado é a perda da estanqueidade e a entrada de água, que ataca a pintura e acelera o processo de corrosão.
Em telhados metálicos com isolamento térmico ou sanduíche, essa infiltração ainda gera mofo, desprendimento do isolante e perda de eficiência térmica.


4. Compatibilidade e preparo do substrato: o fator esquecido


Antes de aplicar o selante, o substrato deve estar:

  • Limpo, seco e livre de pó, óleo e ferrugem;

  • Tratado com primer, se indicado pelo fabricante;

  • Livre de tensões mecânicas que impeçam o movimento natural da junta.

Um erro recorrente em obras é aplicar selante diretamente sobre tinta ou galvanização contaminada, o que reduz drasticamente a aderência.
Outra falha frequente é não respeitar o tempo de cura, expondo o selante à chuva ou calor intenso antes de atingir sua coesão ideal.


5. Boas práticas de aplicação em telhados e estruturas metálicas


  • Escolher o tipo certo: compatível com substrato e exposição.

  • Controlar a geometria da junta: largura e profundidade proporcionais (relação 1:1 até 10mm e 2:1 acima de 10mm de vão).

  • Espessura mínima de trabalho: espessura mínima que o selante precisa para desempenhar a durabilidade prometida (5mm).

  • Usar fundo de junta (cordão de polietileno): evita aderência em três pontos e reduz tensão.

  • Aplicar em temperatura e umidade adequadas: conforme ficha técnica.

  • Respeitar o tempo de cura total antes de pintura ou montagem de outros elementos.

A aplicação correta é tanto técnica quanto procedimental - exige inspeção, treinamento e responsabilidade.


6. Selantes e manutenção preventiva


Selantes não têm vida útil infinita. Mesmo os produtos premium precisam de inspeção periódica, especialmente em:

  • Juntas expostas à insolação direta;

  • Regiões com grande amplitude térmica;

  • Locais sujeitos à vibração ou deformação constante.

A manutenção preventiva consiste em vistoriar visualmente as juntas, identificar microfissuras, perda de brilho e aderência, e planejar a reaplicação localizada antes que surja infiltração.
Essa prática reduz drasticamente custos de reparo corretivo e aumenta a vida útil da estrutura.


7. Normas e recomendações técnicas


Para referência técnica, as principais normas que envolvem selantes e vedações incluem:

  • ABNT NBR 15892: Selantes para construção civil - Requisitos e métodos de ensaio.

  • ABNT NBR 15575: Desempenho de edificações habitacionais (vedações).

  • ASTM C920: Standard Specification for Elastomeric Joint Sealants.

  • ASTM C1193: Guide for Use of Joint Sealants.

Seguir as diretrizes dessas normas assegura desempenho, compatibilidade e durabilidade conforme especificação técnica.


Conclusão: o elo invisível da durabilidade


O selante é um elemento discreto, mas seu desempenho determina se uma cobertura será estanque ou problemática.
A escolha correta do produto, combinada com a aplicação técnica e a manutenção preventiva, é o que separa uma obra durável de um passivo crônico.

Na Nomos, entendemos que selar é mais sobre preparar do que aplicar e que cada detalhe técnico, por menor que pareça, tem impacto direto no resultado final.



 Próximo artigo:


“Selantes e Patologias em Pré-Moldados: desafios da aderência e dilatação térmica na construção civil.”
Nele, vamos explorar como o comportamento dos selantes muda ao lidar com concreto pré-moldado, juntas de dilatação e sistemas mistos de fixação.

Luiz Godoy